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Ovinos
prolíficos e alimentação
econômica
Autor: Sierra,
I. - 16/05/2008
Ainda que seja
uma atividade nova, é perceptível
o desenvolvimento comercial de ovinos no
Brasil e a aceitação dos subprodutos
pelos brasileiros vem colaborando com o
crescimento do setor no país. Mas,
do outro lado do oceano Atlântico,
alguns rebanhos, por exemplo, aqueles destinados
à produção de carne,
têm apresentado resultados econômicos
não muito satisfatórios. Apenas
a subvenção que recebem da
União Européia (EU) permite
sua viabilidade e, por isto, qualquer modificação
futura pode colocar em perigo sua permanência
como empresa de gado. Como causas que
permitem explicar esta situação
podem-se ressaltar três pontos de
dificuldade, fundamentais:
l Mão-de-obra:
pastoreio conduzido em rebanhos pequenos
e elevado custo.
l Alimentação:
rações complementares caras
e partilha do alimento oneroso em tempo
e dinheiro.
l Produtividade numérica
escassa (salvo exceções):
baixo número de cordeiros vendíveis
por ano.
Estes pontos de dificuldade
possuem suporte técnico ou estrutural,
estando também muito relacionados
entre si. Diversas soluções
podem permitir uma melhora dos resultados
técnico-econômicos, especialmente
as medidas estruturais, como aumentar o
rebanho ou manejar com cercas, que
permitiriam uma diminuição
do custo da mão-de-obra por ovelha,
porém, nem todas as soluções
são fáceis de colocar em prática.
A
utilização de rações
econômicas, a repartição
por intermédio de uni-feed (distribuidor
de ração) ou o emprego de
alimentação integral
ad libitum (à vontade) em suas diferentes
modalidades propiciariam, igualmente, uma
menor carga do capítulo alimentar,
promovendo também certo crescimento
empresarial. Finalmente, o aumento da produtividade
numérica, racional e economicamente
estudado ofereceria a possibilidade
de alcançar, nesta espécie,
dois ou mais cordeiros vendíveis
por fêmea e ano. Está claro
que essa intensificação não
é o único modelo válido
como solução, já que
alguns modelos extensivos, com uma produtividade
numérica média, mostram-se
rentáveis combinando época
de partos e recursos pastáveis. Nesta
ocasião, apresenta-se um ensaio piloto
(modelo intensivo-estabulado) que combina
a base genética (alta prolificidade),
manejo reprodutivo intensivo (aumento de
partos anual) junto com rações
econômicas, podendo servir de
base, total ou parcialmente para sua aplicação
real.
Para análise, um lote
de 53 ovelhas da raça Salz (sintética
obtida entre Romanov e raça
Aragonesa) foi submetido a um sistema de
intensificação reprodutiva
a partir de dois lotes dinâmicos e
escalonados de animais, utilizando tratamento
hormonal (esponja vaginal com FGA e 300
UI PMS) unicamente na primavera.
Em sistema de estabulação,
os animais receberam em fase de sustentação
uma ração diária formada
por 1,6 kg de polpa de maçã;
500 g de palha de cereal e 500 g de galinhaça.
No final da gestação (últimos
30 dias), acrescentou-se mais 400 g
de concentrado (50% cevada, 49% gluten feed
e 1% corretivo) e mais 1 kg durante
a lactação, realizando
o desmame aos 45-50 dias. Um corretivo mineral,
fabricado a partir de 52% de fosfato bicálcico,
45% de cloreto de sódio e 3%
de sulfato de magnésio, foi servido
à vontade, sendo o consumo médio
de 10 g/dia. O concentrado foi avaliado
em 1,30 *pts/kg (R$ 2,00) em conceito
de cevada e mistura. A ração
de sustentação fornecia 0,72
UFL e 69 g de PD, com valor total de 9,20
pts (R$ 14,00). A ração do
final da gestação oferecia
1,11 UFL e 120 g de PD, apresentando custo
de 18,40 pts (R$ 28.70). Por último,
durante a lactação foram alcançados
1,71 UFL, 197 g de PD e 32,20 pts (R$ 50,00).
O
experimento - que se desenvolveu ao
longo de três anos - por um lado,
cobria as necessidades em cada fase
fisiológica, permitindo o uso
de algumas rações econômicas
apesar do elevado nível reprodutivo
e produtivo da raça Salz. Nos diversos
controles realizados, os animais em jejum
foram pesados, valorizando a condição
corporal, com o intuito de avaliar
a evolução de ambos os parâmetros,
segundo a fase produtiva. Os cordeiros receberam
concentrado no início e palha
branca a partir de duas semanas de
vida, permanecendo cerca de oito horas
diárias separados das mães
para facilitar o consumo de alimento sólido
e melhorar o desmame.
Destaca-se,
em primeiro lugar, a boa receptividade encontrada
pelos animais na ração econômica
empregada basicamente ao longo dos três
anos. Não foram apresentados transtornos
digestivos nem outros sintomas, tanto nas
mães, quanto nos cordeiros.
A
combinação da polpa de maçã
(alimento suculento, apetitoso e rico
em hidratos de carbono), com a galinhaça
(fornecedora da fonte nitrogenada) e a fibra
longa da palha de cereal - mais a existente
na galinhaça (resíduo) - fornecia
um alimento equilibrado, dentro de um composto
econômico.
Durante 243 dias
observou-se que os animais estavam estabulados
com necessidades unicamente de sustentação,
cujo custo chegava aos 9,20 pts/dia, pouco
mais de R$ 14,00. Assim, um gasto anual
na alimentação por ovelha
de 5.511 pts - equivalente a R$ 86.105 -
não é muito elevado, considerando
estabulação total
e a intensificação reprodutiva
obtida. É verdade que tudo é
bastante mais complexo, porém,
apresenta-se um
fato objetivo e indicativo, que exige
pensar sobre a necessidade de mudanças.
Com esta base nutricional, em função
da raça empregada e o manejo reprodutivo
desenvolvido, foram realizados 1.586
partos ao ano e 3.183 cordeiros nasceram.
Estes receberam tratamentos hormonais reiterados
e no nível do encontrado por autores
diversos a partir de prolíficas,
com tratamentos hormonais sozinhos
ou combinados com fotoperíodo
artificial e com alimentação
não econômica e manejo mais
sofisticado.
A taxa de mortalidade
(13,23% até o desmame e 13,81% de
0 a 90 dias) poderia ser diminuída
com uma maior atenção durante
as tardes e finais de semana, especialmente
nos partos e nas primeiras idades. Desta
forma, seria possível alcançar
2.743 cordeiros vivos/ano aos 90 dias de
nascimento, que descontando a taxa de reposição
permite levar à venda mais de 2.580
cordeiros/ano. As médias observadas
nos rebanhos de Aragón, na Espanha,
oscilavam entre 0,8 e 1,2, exceto nos prolíficos
que chegam a 2,27, o que explica a diferença
existente em ambos os casos.
Por
outro lado, está claro que uma condição
corporal permite uma boa resposta reprodutiva
e produtiva e, assim, sua manutenção
ao longo das diferentes fases fisiológicas
com ligeiro incremento no final da gestação
(aumento de reservas e preparação
do novo tecido secretor e dos fetos),
cujos efeitos positivos puderam
ser observados no peso ao nascer (2.906
kg para uma prolificidade de 2.007).
A
fase de lactação, com uma
sustentada condição corporal
que resulta numa elevada produção
leiteira, destaca-se permitindo aumentos
de 419 g por “camada” e dia até o
desmame, superiores a outras dietas
empregadas sobre a mesma raça Salz.
Da mesma forma, a condição
de desmame (3,13) foi favorável a
um restrito intervalo entrepartos (230,
14 dias), já que, como média,
a gestação (143-145
dias) se estabelece em todas as fêmeas
40 dias pós-desmame.
Conclusões
l
A utilização de rações
econômicas sobre ovelhas prolíficas
permitiu obter em estabulação
elevados níveis reprodutivo-produtivos
ao longo de 3 anos, alcançando 71,83
kg de peso vivo de cordeiro/ano e 130,54
kg por 100 kg de ovelha.
l Mesmo
nos casos de elevada intensificação
reprodutiva, o número de dias em
que a ovelha está em situação
de manutenção (fase não
produtiva) é muito elevado (243
dias), motivo pelo qual o barateamento
destas rações é básico
para uma possível estabulação.
l
A sustentação de uma condição
corporal média (três ou ligeiramente
superior) parece permitir e manter uma boa
resposta reprodutiva-produtiva.
l
Não parece existir contra-indicação
entre o uso permanente de determinados subprodutos
e positivas e econômicas respostas
reprodutiva-produtivas.
l Algumas
destas idéias, podem ser aplicadas
diretamente em nível de rebanho,
pois o modelo citado foi desenvolvido com
um manejo simplificado, permitindo resultados
econômicos positivos.
* pts
(peseta): moeda da Espanha.
Sierra,
I. é especialista em produção
animal pela Faculdade de Veterinária
em Zaragoza, na Espanha. As conversões
dos valores sobre a moeda de origem baseiam-se
em dados extraídos da internet.
Fonte: http://www.revistaberro.com.br/?materias/ler,896
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