Artigo



A Lenta Caminhada da Caprino-ovinocultura em Pernambuco


Clovis Guimarães Filho*

 A política de apoio aos arranjos produtivos até pouco tempo desenvolvida em Pernambuco, ao contrário do que aconteceu em outros estados, ainda não surtiu efeito prático significativo para os segmentos da caprino e da ovinocultura, as de maior potencial para incorporar à economia do estado os cerca de 140 mil estabelecimentos agrícolas da zona semi-árida não irrigável. Os poucos avanços observados devem-se muito mais aos esforços localizados de produtores do que aos efeitos dos programas públicos de apoio. Essas atividades têm sido objeto principal ou marginal de conferências, encontros, estudos e documentos, em sua maioria genéricos e superficiais, protagonizados por ?experts? em semi-árido, boa parte deles, infelizmente, desvinculados da atividade e da região.

 Por não privilegiar a participação dos reais atores das cadeias de caprinos e ovinos no debate, as ações desenvolvidas para fortalecer esses arranjos continuam a incorrer em erros estratégicos, tais como supervalorizar aspectos menos prioritários para o seu desenvolvimento e subvalorizar aqueles merecedores de uma ação mais imediata, ou quando menos, simultânea.

 Um equívoco é a questão da raça, na prática colocada como o principal fator limitante da nossa caprino-ovinocultura. Colocada nestes termos, esta questão beneficia um seleto segmento multiplicador do material genético, em detrimento de questões mais importantes, pelo menos para o estágio atual do nosso produtor típico, como a alimentação nos períodos secos, a qualidade sanitária dos produtos consumidos e a organização e capacitação gerencial do produtor. O caprinocultor ou ovinocultor comercial, aquele que cria para vender carne e peles, segmento correspondente a cerca de 98% da pirâmide produtiva, se vê induzido a adquirir animais exóticos e caros, ?criados? em ambientes artificializados, como a grande e definitiva solução para sua exploração a campo. Passam a mudar o ambiente para adequá-lo aos animais e a buscar o aumento de seu porte em uma região de recursos forrageiros escassos, contrariando duas lições elementares da zootecnia. Melhoria da raça e inseminação artificial não são, definitivamente, estratégias prioritárias para o aumento da eficiência bio-econômica dos rebanhos comerciais típicos do sertão pernambucano.

 Não se tem conhecimento de nenhum programa, por exemplo, de fomento à fenação, à ensilagem ou ao cultivo de palma-forrageira. A quantidade de forragem armazenada no estado, para uso nos períodos de seca, é ridícula. Gratuitamente, para o caprino-ovinocultor, sobram ?capacitações?, assim mesmo na base da oferta, já que não partiram de uma demanda cientificamente identificada. Sem controle maior de qualidade e, mais grave, sem avaliação de seu impacto, essas capacitações se transformam em um fim em si próprias. Do mais elementar nada ou quase nada foi feito. Onde estão os estudos de caracterização das cadeias produtivas e seus circuitos de comercialização? Como se pode delinear um programa de apoio a essas atividades com base apenas em dados secundários, escassos e, em sua maioria, de baixa confiabilidade.

 Antes de priorizar as ações, é necessário que se tenha uma visão quantificada, qualificada e espacializada dos rebanhos, do perfil do produtor, do processador e do distribuidor, além de uma boa noção dos fluxos e da dimensão dos negócios dos principais produtos de cada uma dessas atividades. Isto já foi feito no Rio Grande do Norte e começa a ser feito na Bahia. A posse dessas informações é que permite, dentre outras medidas, zonear as áreas capri e ovi-econômicas prioritárias, localizando adequadamente núcleos de apoio tecnológico e abatedouros regionais estratégicos. Critérios políticos, ainda prevalentes, não teriam muito espaço diante de argumentos fundamentados cientificamente.

 Como se pode consolidar um agronegócio em que o aspecto mais elementar da atividade, o da saudabilidade do produto, tem sido sistematicamente tratado com negligência ou mesmo ignorado? É o caso do abate informal, que, inclusive, desestimula e inviabiliza os investimentos em abatedouros formais. Em contraposição a leilões sofisticadíssimos transmitidos pela TV, na quase totalidade dos restaurantes típicos do estado, onde as carnes caprina e ovina são degustadas, não se sabe de que morreu o animal.  Aliás não se sabe, nem mesmo, se é caprino ou ovino (no ?bodódromo? de Petrolina, só dá bode quando alguém não quer pagar a conta). O estabelecimento, a curto prazo, de um sistema de inspeção sanitária no abate, transporte e distribuição dos produtos caprinos e ovinos traria muito mais benefícios aos seus agronegócios do que essa avalanche desarticulada de seminários, capacitações e feiras a que estamos assistindo.

 Um mercado crescente e insatisfeito credencia a caprino e a ovinocultura entre as melhores alternativas para viabilizar uma economia social e ambientalmente sustentável em pelo menos metade dos 6,8 milhões de hectares da meso-região Sertão de Pernambuco. O estado detém o terceiro rebanho caprino e o quarto rebanho ovino da região. As micro-regiões de Itaparica, Moxotó e Petrolina estão entre as seis maiores do Nordeste em densidade de caprinos. Após décadas de ações para fortalecer o semi-árido não irrigável de Pernambuco, continuamos quase na mesma. A realidade da caprino e da ovinocultura do Estado está distante daquela apresentada nos parques de exposições e nos leilões da TV. Como política de Estado, essas explorações têm, também, que ser enfocadas e trabalhadas como instrumentos de resgate social para milhares de produtores que sobrevivem nas nossas caatingas.  

 As ações de apoio precisam priorizar o estudo dessas cadeias, o zoneamento das áreas prioritárias, a organização dos produtores, a busca de um crédito mais adequado, a estruturação de redes locais de assistência técnica (aqueles que pregam a mudança do padrão tecnológico da produção são os mesmos que se omitiram durante o aniquilamento da extensão rural pública), a implantação de um programa de controle sanitário da unidade produtiva ao distribuidor e, principalmente, um programa de valorização dos produtos, abrangendo a melhoria, a certificação e a promoção de suas qualidades mercadológicas.

 Sem atender essas prioridades, quaisquer esforços dispendidos em prol do fortalecimento dessas cadeias resultarão, apenas, em mais tempo e dinheiro perdidos, em mais recursos naturais degradados e, sobretudo, em menos esperança para as populações rurais que teimam em viver em nossas ?caatingas?.


Fonte: * Médico Veterinário e Consultor em Caprino-ovinocultura

 







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