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Clovis Guimarães
Filho*
O
condomínio
é um método
gerencial de exploração
conjunta de atividades
de produção
e de transformação
já utilizado
na bovinocultura
leiteira. Começa
a ser utilizado
experimentalmente
na caprinocultura
leiteira do Nordeste,
como forma de aumentar
a eficiência
bio-econômica
da atividade. Os
condomínios
da ACCOJUS, em Jussara-BA
e da Associação
Aprisco do Vale,
em Santa Maria da
Boa Vista-PE, são
os mais conhecidos.
O modelo seria também
aplicável
a sistemas de confinamento
de caprinos e de
ovinos. Seu grande
impacto residiria
na expressiva redução
de custos que pode
ser obtida no produto
final.
Sinteticamente,
um condomínio
de cabras leiteiras
consiste em uma
central de ordenha,
preferencialmente
vizinha ou próxima
ao laticínio,
onde cabras lactantes
de distintos produtores
são alojadas
e exploradas conjuntamente
durante quase todo
o período
de lactação.
A gestão
do condomínio
pode ser de um grupo
informal de produtores,
de uma associação
ou cooperativa ou
do próprio
laticínio
que vai processar
o produto. Em outras
palavras, o produtor
condômino
entrega suas cabras
recém-paridas
(com ou sem as crias)
ao condomínio
e as recebe de volta
ao final do período
de lactação,
quando atingirem
produção
leiteira incompatível
com os custos diários
mínimos da
?hospedagem?. Essa
?diária?
é calculada
com base no consumo
diário de
ração
(variável
em função
do potencial produtivo
individual) e em
outros tratos dispensados
a cada animal. Durante
o tempo de permanência
no condomínio,
as cabras são
ordenhadas e tratadas
de acordo com as
recomendações
técnicas,
incluindo sua inseminação
ou cobertura controlada
com reprodutores
de alta qualidade
genética,
de modo que as cabras
sejam devolvidas
aos seus proprietários
já prenhes.
Em suas propriedades
os produtores só
cuidam de suas matrizes
durante sua gestação
e parição.
Todos os
dados produtivos
e de custos são
diariamente monitorados
de cada cabra ?hóspede?
e disponibilizados
permanentemente
aos seus proprietários
para consulta. É
necessário
avaliar, para cada
condomínio,
qual a quantidade
mínima de
cabras e a produção
mínima de
leite por cabra
que viabilizam o
empreendimento.
As vantagens
advindas desse modelo
podem ser inúmeras
e beneficiam tanto
o laticínio
quanto o caprinocultor
condômino.
Para o laticínio,
gestor ou não
do condomínio,
a grande vantagem
estaria em praticamente
eliminar a coleta
diária de
leite nas propriedades,
para muitos deles
o principal item
de despesa operacional,
já que as
cabras são
ordenhadas ali,
ao lado, ou bem
mais próximo.
Investimentos em
caminhões
isotérmicos
e em tanques de
resfriamento seriam
quase que totalmente
eliminados.
Outras
vantagens incluiriam
a simplificação
no combate às
fraudes e condições
mais favoráveis
para obtenção
de uma maior padronização
da matéria
prima e, por extensão,
uma melhoria de
qualidade nos produtos
finais. Para os
caprinocultores,
organizados em associações
ou cooperativas,
as principais vantagens
compreenderiam:
Maior
disponibilidade
de tempo para se
dedicar a outras
tarefas da propriedade,
já que estariam
dispensados da extenuante
tarefa diária
de ordenhar e alimentar
as cabras lactantes;
Maior
disponibilidade
de pastos para incremento
do rebanho ou de
áreas para
cultivo em suas
propriedades, já
que boa parte das
matrizes se encontra
no condomínio
por uma boa parte
do ano;
Eliminação
da necessidade de
aquisição
e manutenção
de reprodutores
de alta qualidade
genética,
geralmente um investimento
a valores fora do
seu alcance;
Eliminação
do investimento
na construção
e manutenção
de uma sala-de-ordenha
e seus utensílios;
Viabilização
da prática
de duas ordenhas
diárias em
suas cabras no condomínio;
Eliminação
do pesado investimento
em aquisição
e manutenção
de tanques de resfriamento
de leite, individuais
ou coletivos;
Valorização,
via melhor qualidade
e maior escala de
comercialização,
do esterco
recolhido e tratado
no condomínio;
Acesso
permanente aos dados
de desempenho zootécnico
e econômico
de suas matrizes.
Há,
contudo, alguns
pontos a ponderar,
considerando que
a incipiência
das experiências
de condomínio
já em andamento
na região,
não permitiu
ainda a formação
e disponibilização
de dados técnicos
e econômicos
em escala suficiente
para uma melhor
avaliação.
O principal deles
é, sem dúvidas,
o investimento necessário
para que o condomínio
se estruture para
prestar todos os
serviços
mencionados com
a qualidade que
se deve exigir.
Caso não
fosse disponibilizada
uma propriedade
já com aprisco
e sala-de-ordenha
de um dos condôminos
(ou da cooperativa
ou do laticínio),
seriam demandados
recursos significativos
para construí-los
e equipá-los,
para adquirir reprodutores
e para formação
de pastos e capineiras
(preferencialmente
irrigados para não
tornar a oferta
da matéria-prima
vulnerável
aos humores pluviométicos
do semi-árido).
O ponto
mais crítico,
contudo, seria a
contratação
de uma equipe de
apoio técnico
profissional ao
condomínio,
incluindo, em função
do número
médio de
matrizes exploradas,
um bom gestor (permanente),
um veterinário
ou zootecnista (tempo
parcial) e um técnico
agrícola
(permanente), não
esquecendo os tratadores
qualificados e a
estrutura informatizada
necessária
ao monitoramento
e sistematização
dos registros zootécnicos
e econômicos.
Outro
aspecto complicador
é a questão
das crias. Uma alternativa
seria o produtor,
mesmo retendo a
cabra parida na
propriedade uns
dias a mais, a submetesse
a um processo de
desmame antecipado
de modo que a cria
não tivesse
de acompanhar a
mãe ao condomínio.
A
terceira questão
diz respeito ao
arranjo organizacional.
Impõe-se
uma forte articulação
entre os distintos
atores da cadeia
produtiva, especialmente
o produtor organizado
e o laticínio,
no sentido de identificar
a forma de arranjo
organizacional capaz
de assegurar o melhor
custo-benefício
para o complexo
produção-processamento
de leite. Organizações
débeis de
caprinocultores
dificilmente levariam
a bom termo empreendimentos
dessa natureza sem
a contrapartida
da parceria com
um laticínio
forte e relativamente
consolidado em termos
de mercado.
O
condomínio
de Santa Maria da
Boa Vista-PE, com
apoio financeiro
da Codevasf e Sebrae
e técnico
da Embrapa começou
a operar ainda sem
considerar alguns
os aspectos acima
mencionados, mas
as perspectivas
são bastante
animadoras. A propriedade
onde se localiza
o condomínio
é formalmente
cedida por um dos
condôminos
em comodato. Foram
construídos
aprisco e sala-de-ordenha.
O condomínio,
formado inicialmente
por 17 produtores,
já conta
com 180 cabras,
mestiças
de Saanen e Anglo,
utilizando pastos
e capineiras irrigados.
O laticínio
da associação
acha-se ainda em
início de
construção,
sendo o leite produzido
atualmente comercializado
para outros associados
fabricantes de queijos
e parte distribuído
na merenda escolar
do município.
O entusiasmo
é grande.
Vale a pena acompanhá-lo
e apoiá-lo.
A caprinocultura
leiteira precisa
dos subsídios
dessa experiência.
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