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Manoel Dantas Vilar Filho*
A cabra foi o segundo animal domesticado, há
mais de 10 mil anos, quando houve a chamada Revolução Neolítica, com o Homem
aprendendo a plantar e a domar os bichos, para seu proveito. Antes dela, foi o
cachorro, como parceiro nas andanças à cata de alimentos silvestres. Comida e
companhia, são o essencial para a vida humana, até hoje.
A Bíblia, além de um elo entre o Homem e a Divindade, contém, em certo sentido,
a crônica da vida de um povo numa região seca. Fala em cabra 130 vezes e as
ovelhas permeiam seus textos, além de ensinar a viver com dignidade, quando
nada, no horizonte de uma pobreza honrada. O menino Jesus ao nascer, foi
acomodado sobre um travesseiro feito com feno, numa manjedoura que tinha em
volta de si, uma vaca, uma cabra, uma ovelha e um jumento, frutos da atividade
predominante no semi-deserto de Belém e Nazaré, num simbolismo revelador, do
que significa a Pecuária para uma zona seca.
A cabra é o ruminante mais expressivamente disseminado, pela mais fácil
adaptação de suas funções produtivas ao calor, ao frio, ou à seca de cada
pedaço do mundo e, dependendo do lugar, uma é preferida por causa do leite,
outra por causa da pele ou dos pêlos e, das duas, se aproveita a carne enxuta
como bom alimento.
No Brasil não havia cabras nativas. Vieram inicialmente, como nós, da Península
Ibérica e depois, em menor escala, nos navios negreiros da África, logo
preferindo expandir-se no Nordeste, por onde o Brasil da civilização ocidental
começou, como que dizendo que ali era seu lugar e era bom.
O menosprezo às Cabras foi muito grande aqui. Desde as Instituições Oficiais
(Ministérios, Órgãos de Ensino e Pesquisa ou de Financiamento) até os
fazendeiros, que além da herança colonial (os portugueses não cuidavam muito de
cabras, ao contrário dos espanhóis), defendiam suas lavouras lotéricas da fama
de esperteza e traquinagem das cabras.
Largadas na Caatinga aberta comum, a seleção natural foi negativa para a função
leiteira, porém geneticamente muito valiosa para rusticidade, prolificidade
e qualidade da pele. A primeira iniciativa oficial de classificar
uma raça e proceder ao seu melhoramento, só veio ocorrer em 1934/35, aqui em
Pernambuco, por iniciativa de Dr. Renato Farias, então Diretor da Secretaria de
Agricultura, avistando e enxergando o tipo predominante no vale do Rio
Moxotó.
Cada região do mundo, tem suas raças animais bem definidas. De vacas, cavalos,
cabras, ovelhas e, até, galinhas. Basta ver que os nomes dessas raças incluem
sempre uma referência ao lugar onde elas se formaram: boi Hereford, cavalo
Andaluz, cabra Murciana, ovelha Morada Nova, galinha Plymouth, etc. Leio nisso
uma insinuante correlação dos animais com clima, ambiente, cultura, compatibilidade.....
produção. Aqui no Brasil, fisiograficamente tão diversificado e com um
potencial pecuário sem similar no mundo, ainda não é bem assim. Importam
animais do Hemisfério Norte, importam suas doenças para importar os remédios e
a comida, sem importar também o clima e a política agrícola de lá.
As cabras nativizadas, por exemplo, cujos tipos o povo sertanejo bem definiu -
Surrão, Moxotó, Canindé, Marota, Cabra Azul, Graúna, etc. - de cada um
destacando uma vantagem, foram oficialmente rotuladas de SRD - Sem Raça
Definida - convertendo o Brasil no único lugar do mundo onde suas cabras não
têm, sequer, o direito ao batismo, sendo arroladas num pacote só, transcendendo
a desdém e desvalorização. Confundiram o conceito de raça com o de padrão
racial - atribuição de Órgãos Oficiais - que um comportamento
subdesenvolvido e servil só soube estabelecer para as cabras de fora, com uma
rotulagem de "P.O.Is" (Puras de Origem) que encanta e até deslumbra a
muitos amadores desavisados e técnicos de alma alienada.
Por uma perniciosa deformação cultural, em larga medida, brasileiros ainda se
mantêm com o umbigo e a mente presas no Estrangeiro, como quem cultiva um
complexo de inferioridade, colonial, negativo, menor. Um estadista paraibano -
João Suassuna - já escreveu um documento de Governo (1926): "somos um Povo
sugestionado pela política inferior do decalque.... ." No trabalho na
terra, essa anomalia se exacerba, porque a diferença entre o mundo temperado e
o tropical, mais que noutro campo do conhecimento e da vida, deveria impedir a
prática do adotar sem adaptar, conceitos e técnicas somente aplicáveis
em regiões de clima regular.
Um país pode crescer com o aumento de seu PIB. Uma Nação só cresce com um
caráter, uma fidelidade ao seu passado, uma luta pela sua identidade. Uma
expressão de Ariano Suassuna falando sobre Arte em geral, bem completaria essa
afirmação, dizendo que, só assim, "..... o que vier de fora, em vez de uma
influência que nos descaracteriza e esmaga, passa a ser uma incorporação que
nos enriquece".
A identidade e o caráter das plantas, dos animais, do chão da terra e a forma
de trabalhar nele, pedem consideração análoga, para que possam prestar.
O pesquisador e mestre zootecnista sul-africano Jan C. Bonsma, em
conferência no Brasil (1982), sugeriu: "Sejam impiedosos no descarte
seletivo para o melhoramento do gado, quanto a: 1º) adaptabilidade às
condições locais, 2º) fertilidade, 3º) precocidade, 4º) conversão de
alimentos, 5º) docilidade..... .
Marcus Catão, tribuno romano, ano 184, em sua obra "De Agriculturae",
consultado sobre qual o melhor emprego das terras no trabalho rural, respondeu:
1º) Proveitosa criação de gados, 2º) Criação de gados com lucros modestos, 3º)
Criação de gados sem lucros e 4º) O aramento de terras.... . Pensar no que ele
disse, pensando no semi-árido, quando se valoriza muito a proteção do ambiente
e do solo, é, ainda, mais pertinente.
O pessoal da OCDE, discutindo a proximidade do "food power"
prevalecer no concerto das grandes potências do mundo, já dizia (1983):
"..... entre os tesouros mundiais, destacamos o espaço agricultável
do Brasil.....", e mais, "..... que poderá produzir a carne mais
barata do mundo, porque detém o milagre mundial do boi de fotossíntese
.....". A conversa deles cheira, historicamente, a exploração, egoísmo,
imposição, impiedade social, ou, para usar equivalentes atuais, a
"competitividade" e "mercado globalizado".
Não temos 1/3 do tempo sob friagens radicais e neves espessas. O zootecnista
inglês T.R. Preston (1977) num Ensaio designado "Estratégia para
Produção de Bovinos nos Trópicos", garantia que "..... os
trópicos oferecem possibilidades de rendimento por unidade de área e de
viabilidade econômica, que superam em muito as perspectivas atuais e mesmo
futuras dos países de clima temperado". Adiante, criticando "..... as
crenças ensinadas nos compêndios de Zootecnia sobre a especialização de bovinos
para produzir leite ou carne", propõe que se confine ".....
sobretudo na função do rúmen" e não se ponham os animais a competir com o
homem pelo consumo de cereais e, por fim, afirma "..... já que
necessitamos tanto de carne como de leite, a base de toda a
estratégia pecuária racional é considerar as duas produções conjuntamente",
fundamentando a genética da dupla função.
Para as cabras nordestinas, essa afirmação torna-se ainda mais efetiva, pois,
despidas dos pêlos longos que traziam, desenvolveram uma 3ª função econômica,
convertendo sua pele num elemento ainda mais valioso do que a carcaça,
para a fabricação das mais diversas utilidades humanas.
A não ser para a pequena parte irrigável artificialmente, onde produzimos
qualificadas frutas, existe um triste contraste entre as
realidades - boas e más - da zona seca e os mecanismos institucionais de lidar
com elas, desde o ensino/pesquisa até a política de produção e assistência.
A chamada Civilização do Couro, foi a fase mais próspera da Economia
Nordestina. Técnicos argentinos, falando sobre o Chaco Seco de lá (1980), que
tem a mesma extensão que o nosso Polígono das Secas, afirmam: "..... de
acordo com a nossa experiência, quanto mais seca a região, sempre que se
disponha de pasto e água, tanto maior é a produção pecuária" e mais:
"..... estamos em condições de afirmar que todo plano puramente agrícola
nestas regiões, está, de antemão, condenado ao fracasso. O risco das colheitas
é demasiado grande para ser a base da exploração".
O Brasil com o Nordeste seco bem incluído, tem a vocação e o destino de ser
também, a grande Nação agropecuária, sobretudo Pecuária, do mundo. Basta neutralizar
mentes coloniais e Ter a dignidade de estabelecer uma política decente de
financiamentos rurais, calcada em parâmetros tecnicamente corretos e
ajustados para cada região fisiográfica. Tomando o Brasil como referência
para pensar o Brasil e a peculiar semi-aridez no NE para o NE.
O Nordeste é seco. O inverno é um pequeno intervalo de tempo entre dois
estios, que, às vezes, se emendam. A grande vocação das terras secas é Pecuária
de ruminantes e isso já começa a ser considerado, graças a Deus. Por mais
óbvia que seja, quase sempre é preciso repetir uma mesma idéia até cansar. Há
uma dramática não decisão em relação à semi-aridez do NE. Os
moradores do semi-árido são credores do Brasil
À medida que se está ideologicamente revogando a "filosofia da água",
do "combate à Seca" - a água passando a ser buscada para resolver o
problema da sêde, o uso primordial e sem alternativas que água tem e não
o da fome, como "fator de produção" excludente, e vai
clareando o caminho técnico-cultural-político de viver em sintonia com a
Natureza desse mundo áspero, bonito, possível e mal tratado do sertão das águas
desarrumadas, a Pecuária de múltipla função, sobre vegetais perenes, integrada
por Bovinos, Caprinos e Ovinos, bem adaptados ao ambiente, recriará a Civilização
do Couro em novas bases e o semi-árido poderá se transformar, também do
ponto de vista da produção e da prosperidade, num belo pedaço do Brasil. A raça
das plantas, como raça dos animais, para cada latitude, é um fator
fundamental.
Nesse quadro amplo e verdadeiro, o papel que tem a Caprinocultura, é da maior
significação. O consumo de leite de cabra, assim como o de carne, é muito
pequeno ainda, no Brasil. As peles das cabras e das ovelhas deslanadas formadas
no NE, estão entre as melhores do mundo, embora os criadores ainda não ganhem
nada com isso e não haja uma preocupação firme com a preservação dessa
qualidade, sobretudo pela importação de animais da Inglaterra, Estados Unidos e
de outros ambientes nevados.
O uso de leite de cabra nas cidades maiores começou há pouco tempo, pelo IMIP
(Instituto Materno Infantil de Pernambuco), no Recife - iniciativa qualificada
de seu dirigente, Prof. Malaquias Batista. Depois, ainda no Recife, geriatras
começaram a prescrevê-lo na dieta dos mais velhos, copiando corretamente a
sabedoria sertaneja, que já alimentava com leite de cabra, seus filhos, seus
avós e a família inteira.
Na Paraíba, só em Março de 1990, fomos nós que começamos a mandar parte do
leite para consumo direto em Campina Grande e na Capital, o restante para o Rio
e São Paulo, sob a forma de queijos maturados.
O trabalho de preservação com regeneração (castiçamento), das cabras
nordestinas, através do uso leve do sangue de suas homólogas pirenaicas atuais,
iniciado em 1971, tentando somar virtudes, em rica parceria ideológica com meu
primo de sangue e amante do mundo a partir do sertão, Ariano Suassuna,
resultou, até, em nos "acusarem" de ter "inventado" cabra,
esse animal bíblico, que já garantia a sobrevivência de persistentes
nordestinos, à margem remota das secas, há mais de 400 anos. Na Fazenda, as
cabras tomaram o lugar, com grande vantagem, do penar e do risco das lavouras
temporárias, aumentando, inclusive, a ocupação de mão-de-obra, em relação à que
trabalhava no tempo da loteria dos roçados.
Atualmente, mais de uma dezena de produtores, já pasteurizam leite de cabra
para consumo urbano, no Estado, e a carne vai passando a ser iguaria disputada
em restaurantes.
Um exemplo formidável do potencial da Caprinocultura, muito recente, nos dá o
Rio Grande do Norte. A articulação entre Associações de Criadores e Governantes
igualmente conscientizados, levou à substituição do leite importado, por leite
fluido produzido lá, para a merenda nas escolas e suplementação alimentar dos
carentes, o Estado assumindo a tarefa quando o Governo Federal cancelou o
"Programa do Leite", pela mão do 1º Fernando apátria que assaltou o
Poder Nacional.
Essa atitude estadual teve o duplo propósito: manter a melhoria alimentar de
necessitados, enquanto apoiava, na base, a atividade essencial do semi-árido
potiguar, tradicional produtor de carne-de-sol e queijos.
No programa de leite de vaca, que já cobria todo o Estado, foi aberto um espaço
para o leite de cabra, no começo de 1998, ano de terrível seca. Dos 26 litros
(R$ 0,75/litro, ao produtor) do dia 1º de abril, quando começou, logo
alcançaram os 2.000 litros/dia do Convênio Inicial e já coletam hoje mais de 10
mil litros. O Rio Grande do Norte, em dois anos, obteve a maior redução na taxa
de mortalidade infantil, garante a manutenção de milhares de empregos positivos
no campo e reduziu o número de alistados nas "frentes de emergência"
das secas posteriores que, por sinal, mudaram agora, mais uma vez, de nome,
embora mantendo a mesma inversão de foco: em vez da atividade
permanente do trabalho nas glebas, preferem a hipocrisia no trato da circunstância.
Já funciona em Lages RN, a parte de abatedouro de pequenos ruminantes e
instalam o Curtume anexo, além da Usina de desidratação de leite, da Associação
de Criadores do Sertão do Cabugí, a iniciativa particular começando a suceder o
Estado na ampla vereda que, cumprindo o seu papel decentemente abriu e
garantiu. A natural convergência do interesse pelos três produtos - leite, pele
e carne, bem demonstra a vantagem do Nordeste e suas cabras, sobre a especialização
de raças de outros mundos, incorporando à prática, o que se sabe da
superioridade de um mundo sem neve para produzir comida e utilidades, vindas do
chão e do sol.
Com a média diária de 132 mil litros de leite de vaca e 10 mil de cabras, o
dispêndio do Estado pouco passa de 1% - um porcento - do orçamento anual. No
setor da Saúde deve economizar mais do que isso, sem contar qualquer ICM, pelo
aumento do poder de compra dos sertanejos. O Estado já se tornou
auto-suficiente no abastecimento do leite.
Quando começamos aqui na Carnaúba, o que havia publicado sobre Caprinos, no
Brasil, era pouco e pobre, sobre raças, instalações apropriadas e manejos
alimentar e sanitário. No máximo, eram simplórios decalques de outros mundos,
onde, para começar, a neve impõe o confinamento radical dos animais, os
rebanhos são pequenos, há sobra de cereais e fortes subsídios financeiros à
produção.
Pela via de errar e consertar, adaptando para as cabras o que sabíamos sobre
Bovinos, escapamos dos modismos simplórios e nos fixamos, afinal, em trabalhar
com as belas cabras da Caatinga Nordestina, com seleção dentro dos
agrupamentos, ou repasse leve de reprodutores europeus homólogos, em
instalações que nos custaram muito fazer e desmanchar. Segundo a acuidade de
Ariano Suassuna, somo criadores de cabras IBERO-BRASILEIRAS, VERMELHAS,
BRANCAS, NEGRAS e AZUIS, até por analogia e reverência ao povo brasileiro, na
sua síntese entre brancos europeus, negros africanos e índios daqui mesmo.
Mantemos com o Departamento de Zootecnia da UFPB, um Convênio de cooperação,
desde 1989. Vou resumir em seguida, dados dos Controles que são feitos,
incluindo, os da Avaliação Econômica do chiqueiro das cabras, apurados de 1990
até 1999, como informação que possa servir a outros criadores. A separação do
tempo, para alguns, em antes e depois de 1994, se deve às conseqüências de
terrível doença, até hoje não esclarecida, que naquele ano, causou enorme
estrago por si e suas seqüelas:
REBANHO TOTAL MÉDIO (10 ANOS): 305 adultos e 129 cabritos
CONSUMO MÉDIO DE ALIMENTOS, EM TONELADAS POR ANO:
88 - capim elefante 164 - palma forrageira 48 - casca de mandioca 28 - farelos 26 - diversos (feno, piolho de algodão, etc.) 2 kg de pasto/por cabeça/dia, até os meses de julho/agosto, dependendo da chuva.
TAXA ANUAL DE MORTALIDADE,
SEPARADAMENTE, PARA CABRITOS E PARA O REBANHO TODO, EM PORCENTAGEM:
1990 a 1993: 12,0 e 10,4 1994 a 1997: 35,5 e 28,5 1998 a 1999: 27,1 e 18,4 Globalmente: 1990 a 1999: 24,2 e 19,2
TAXA ANUAL DE DESFRUTE
(NASCIDOS + VENDIDOS - MORTOS, SOBRE O TOTAL DO 1º DIA DO ANO)
1990 a 1993 - 144,6 % 1994 a 1997 - 64,5 % 1998 a 1999 - 122,9 % Taxa Global: 1990 a 1999 = 104,2 %
PRODUÇÃO DE CRIAS:
1990 - 1993 = 2,17 cabritos/cabra/ano 1994 - 1997 = 1,52 cabritos/cabra/ano 1990 - 1997 = 1,86 cabritos/cabra/ano Moxotós: 1,7 cabritos/parto Graúnas: 1,6 cabritos/parto Pardas: 1,5 cabritos/parto
RECEITA EFETIVA DO CHIQUEIRO,
COM LEITE E A VENDA DE ANIMAIS (10 ANOS)
Leite: 69,5 % Venda - abate: 11,2 % Venda - recria: 19,3 % Receita mensal, por cabra adulta: R$ 7,53 Despesa mensal, por cabra adulta: R$ 7,05 Saldo: R$ 0,48
O preço do leite variou, nesses anos, de 0,85 até 1,10 reais, por litro, com
produção média de 1,7 litros/dia para novilhas e cabras e são ocupadas entre o
Chiqueiro e a Queijeira 8 pessoas, incluindo a técnica encarregada da
supervisão e controle zootécnico.
O detalhamento desses números (em anexo) acrescenta esclarecimentos e, por
tudo, vou comentar algumas conclusões que podemos inferir, umas muito positivas
e outras que recomendam prudência e reivindicação:
- Pelo consumo médio das
rações, uma gleba que possa ter 1 ha de capim elefante, dois
revezos de capim buffel e 1,5 ha de Palma Forrageira,
considerando a aquisição fora da Fazenda de farelos e outros subprodutos
industriais, poderá manter em produção um rebanho de 300 cabras;
- A receita do leite é
fortemente majoritária, comprovando aqui, o que acontece no mundo inteiro:
caprinocultura começa pelo leite, depois vem a produção de peles e depois
o da carne;
- O equilíbrio entre
rusticidade e funções produtivas é da maior importância. Enquanto as
Pardas pariam 2 vezes, as Moxotós pariam 3, porque o repasse da Moxotó da
França (Alpina Francesa Mantelada) foi mais leve. Tive de voltar com um
Gurguéia pé duro, nas Pardas. O uso mais recente (1995) de Murcianas,
nativas do árido Sul da Espanha e de superior resistência e produção, pode
deslocar aquele Ponto de Equilíbrio, das Brancas para as Negras. A
rusticidade delas eqüivale à das Graúnas, e transformam muito bem, capim Buffel,
Feijão Brabo, Feno de Maniçoba, Malva Branca, casca de Mandioca ou
Jureminha em rico leite e carcaça bem coberta.
- Eu já sabia que se confunde
muito volume aparente com peso específico, em Bovinos, e que
vaca Holandesa para produzir aquele leite todo, precisa comer comida de
gente e viver sob banhos e ventiladores. Foi do que nos lembramos para
correr dos Bujhs, Nubianos e cabras Saanens, por onde começamos, entrando
no "moda" daquele tempo e se assustando com os custos e as
ineficiências, até aprendermos que animais de porte médio são mais
econômicos e que a maior produção não significa maior lucro;
- As grandes doenças de
Cabras são verminose e linfadenite. Depois de muito apanhar da primeira,
obedecendo às bulas dos vermífugos (vacina de 6 em 6 meses,
"no início das águas" e no "início da estação seca") e
à conversa de que no sertão seco não havia lombriga, passamos a fazer
aplicações regulares de vermífugos e controlar o mal do caroço com
precoces injeções de formol, por sugestão de um amigo médico, depois de
cansar as costas, acocorado para fazer cirurgias de remoção do pus, que,
por mais que cuidasse, deixavam resíduos contaminadores.
Cabra é como índio - rústico mas de saúde frágil - parecendo que quanto
mais viva solta, mais saúde e produção apresentam. Mais que para outro
animal, a Veterinária deve ser preventiva, condicionando desde as
instalações até o uso de medicamentos, mesmo no saudável clima seco do
semi-árido.
Há surtos endêmicos de problemas sanitários, muito esquisitos e
prejudiciais. O manejo dos cabritos é exigente, se se vai tomar o leite
das mães, para consumo humano. As taxas de mortalidade são pesadas, embora
menores do que nos começos, e muita gente as considera normais. Eu, não.
As dos Bovinos mal chegam a 2 % ao ano, e só penso que das cabras, pode se
aproximar disso.
- Nesse simples conjunto de
dados, já fica bem evidente o que faz um ano de seca maior, na queda dos
índices produtivos e no aumento dos custos de criação, afora o período
seco de 8 ou 9 meses, normal, de cada ano. O cio das cabras não depende
apenas do nível de nutrição. Quando a seca aperta, é que se exagera mesmo,
a falta de apoio de uma Política Agrícola decente referida à diversidade
fisiográfica do Brasil e ao potencial de produção de cada região.
Política Agrícola é, essencialmente, Crédito Rural, de Investimentos e
Capital de Giro, e além daí, o que há é muito academicismo, é tecnocrata
maniqueísta praticando a arte de explicar porque não se faz. É horrível,
sobre esse assunto, agüentar tanta erudição da inteligência e tanta
exaltação do secundário. Nos países desenvolvidos, Crédito Rural é assunto
resolvido, lá nos começos. Técnicos e Governantes, já discutem é sobre o
tipo e volume dos SUBSÍDIOS da Política que praticam. No Brasil, o Crédito
Rural, que é um "insumo de produção" e, portanto, um problema de
parâmetros técnicos, nunca foi uma atribuição do seu Ministério da
Agricultura. No semi-árido, então, nunca se perguntou à sua produção
agrária, qual sua capacidade de remunerar capital. Taxas de juros, prazos
de carência e amortização, continuam sendo fixados ao sabor do arbítrio de
burocratas urbanóides, que nunca sequer entraram numa Fazenda, para saber
como funciona. A falta dessa política pública é uma ameaça à expansão
possível dessa produção pecuária, que vivia arquivada no abandono do
sequeiro do Nordeste há tanto tempo e agora toma contornos positivos;
- O custo de produção de
leite de cabra é maior que o de vaca, mesmo essas vacas sendo zebuínas de
dupla função, como Guzerá ou Sindi e as cabras também sendo rústicas. Por
isso e porque seus glóbulos sólidos são menores, os queijos têm valor de
iguaria qualificada no mundo inteiro, assim como a carne sadia e enxuta
dos caprinos cresceu de importância, à medida que os médicos descobriam os
inconvenientes das carnes entremeadas de gordura e colesterol;
- A comercialização de leite
e carne de caprinos, normalmente produzidos em pequenas quantidades
individuais, requer um nível de articulação e organização, ainda menor,
que para outros produtos;
Na contramão do roteiro clássico da migração dos nordestinos da seca,
larguei a Engenharia Urbana de antes e assumi, por morte desavisada do
Pai, o cuidado da Fazenda, sem considerar isso uma condenação. Desenvolvi
com o Cariri da Seca, uma relação intensa, funda e inevitável, no tempo e
empenho integrais que lhe dediquei, há mais de 30 anos.
Após crescer a clareza e a crença no potencial do semi-árido, de tanto Ter
que digerir o contraste entre o viável de fazer e o que acontece, em
relação a esse meu mundo, sem perder nem por um instante a fé,
freqüentemente cometo o pecado da ira. Às vezes penso que ainda falta
completar a Revolução Neolítica do Nordeste seco.
As Guzerás, as cabras e as ovelhas deslanadas me pacificam depois, e a
esperança ganha do medo de não ver o Nordeste assumir sua seca e seu
caminho verdadeiro.
Taperoá, agosto de
2001
CHIQUEIRO DAS CABRAS - CONSUMO DE
ALIMENTOS
1990 - 1999
|
REBANHO
|
RAÇÕES -
toneladas/ano
|
|
Ano
|
Adultos
|
Cabritos
|
Capim
|
Palma
|
Mandioca
|
Farelos
|
Diversos
|
Pasto
|
|
1990
|
331
|
143
|
104
|
245
|
114
|
50
|
-
|
-
|
|
1991
|
343
|
167
|
108
|
85
|
110
|
44
|
24
|
-
|
|
1992
|
315
|
185
|
115
|
129
|
58
|
30
|
13
|
124
|
|
1993
|
317
|
212
|
107
|
290
|
16
|
38
|
50
|
-
|
|
1994
|
333
|
65
|
79
|
112
|
11
|
24
|
14
|
125
|
|
1995
|
260
|
107
|
78
|
58
|
4
|
22
|
18
|
80
|
|
1996
|
321
|
98
|
128
|
143
|
12
|
26
|
46
|
95
|
|
1997
|
317
|
106
|
93
|
193
|
59
|
14
|
21
|
86
|
|
1998
|
283
|
99
|
55
|
267
|
-
|
21
|
38
|
26
|
|
1999
|
229
|
103
|
17
|
119
|
-
|
10
|
31
|
107
|
|
Médias
|
305
|
129
|
88
|
164
|
48
|
28
|
26
|
2 kg/cab
|
CHIQUEIRO DAS CABRAS - RECEITAS 1990 - 1999
|
R$
|
%
|
Preço
|
R$/adulta/mês
|
|
Ano
|
Receita Efetiva
|
Leite
|
Abate
|
Recria
|
$/litro
|
Receita
|
Despesa
|
|
1990
|
39.336
|
74,3
|
9,7
|
16,0
|
0,82
|
9,9
|
9,3
|
|
1991
|
33.084
|
77,5
|
3,7
|
18,8
|
0,88
|
8,0
|
6,3
|
|
1992
|
26.732
|
77,3
|
7,1
|
15,6
|
0,86
|
7,0
|
5,5
|
|
1993
|
20.579
|
62,4
|
26,2
|
11,4
|
0,81
|
5,4
|
7,6
|
|
1994
|
20.561
|
71,5
|
11,2
|
17,3
|
0,85
|
5,2
|
3,6
|
|
1995
|
24.988
|
81,4
|
4,3
|
14,3
|
0,85
|
8,0
|
6,0
|
|
1996
|
31.251
|
82,0
|
6,1
|
11,9
|
0,95
|
8,1
|
11,5
|
|
1997
|
18.325
|
68,3
|
8,6
|
23,1
|
0,85
|
4,8
|
6,6
|
|
1998
|
25.111
|
43,1
|
24,0
|
32,9
|
0,86
|
7,4
|
7,6
|
|
1999
|
31.677
|
56,8
|
11,3
|
31,9
|
1,10
|
11,5
|
6,5
|
|
Médias
|
27.164
|
69,5
|
11,2
|
19,3
|
|
7,53
|
7,05
|
CHIQUEIRO DAS CABRAS
ÍNDICES DE PRODUÇÃO E REPRODUÇÃO
|
Taxas % Mortalidade
|
|
|
Ano
|
Cabritos
|
Reb. Tot.
|
Desfrute
|
|
1990
|
15,2
|
12,6
|
-
|
|
1991
|
10,6
|
8,6
|
156,5
|
|
1992
|
14,4
|
11,3
|
104,4
|
|
1993
|
7,8
|
9,2
|
173,0
|
|
1994
|
65,5
|
47,6
|
61,2
|
|
1995
|
23,4
|
21,0
|
76,9
|
|
1996
|
23,7
|
22,4
|
71,5
|
|
1997
|
29,3
|
22,7
|
48,2
|
|
1998
|
26,9
|
19,7
|
112,1
|
|
1999
|
27,3
|
17,0
|
133,7
|
|
Médias
|
24,41
|
19,21
|
104,2
|
TAXA ANUAL DE MORTALIDADE - % 1990 - 1993: 12,0 10,4 1994 - 1997: 35,5 28,5 1998 - 1999: 27,1 18,4 Sem 1994: 17,8 15,4 Com 1994: 23,8 19,4 Tudo: 24,4 19,2
TAXA ANUAL DE DESFRUTE - % 1990 - 1993: 144,6 1994 - 1997: 64,5 1998 - 1999: 122,9 1990 - 1999: 104,2
CRIAS / CABRA / ANO 1990 - 1993: 2,17 1994 - 1997: 1,52 1990 - 1997: 1,86
CABRITOS / PARTO Moxotó - 1,7 Graúna - 1,6 Parda - 1,5
|